Lendo Letras: Destrinchando ‘Vampiro da Rua XV’, da banda Maglore

Este é o primeiro texto deste projeto onde iremos destrinchar letras de música em busca de entender seu significado. É importante ressaltar que as interpretações são pessoais, e em hipótese alguma são uma verdade absoluta. Sinta-se à vontade para discordar.

A banda Maglore já está na estrada há mais de 10 anos e possui letras riquíssimas. Uma delas é ‘Vampiro da Rua XV’, lançada em 2015 no álbum ‘III’, pela gravadora DeckDisk.

A letra composta pelo vocalista Teago Oliveira aborda um relacionamento amoroso metaforicamente a partir do conceito de ‘vampiro’. Iremos primeiro analisar cada estrofe da música para no fim termos uma interpretação conclusiva.

Disco ‘III’

Um tiro à queima-roupa e ele desapareceu

No meio de uma multidão, ninguém nem percebeu

Era verão de 88, ele queria estar ali

Janelas e cortiços em andares infinitos

Foi quando ele encontrou um velho amigo

Que lhe perguntou porque que ele nunca envelheceu

Nossa música começa com um ato súbito: um tiro. Podemos interpretar este tiro como uma notícia, palavra forte ou um fato que desabou nosso eu lírico, o fato de ninguém perceber reforça a ideia de que foi algo silencioso, no entanto intenso. Esse tiro foi à queima-roupa, podemos considerar de alguém ‘muito próximo’ e fez nosso personagem ‘desaparecer’, metaforicamente morrer ou ‘se transformar’, como notaremos mais adiante.

A estrofe também descreve o local onde o caso se passou. ‘Multidão’ e ‘andares infinitos’ nos remetem à um grande centro populacional, uma metrópole. O ‘verão de 88’ e a pergunta do amigo sobre o eu lírico nunca ter envelhecido já mostra a transição entre tempos na música.

De dia meio um sol, de noite a solidão

Era festa, não tristeza, nada pra se abrir mão

Lembrou de uma garota que lhe deu seu coração

Não esqueceu que também o partiu em pedaços pelo chão

E condenava enquanto vivo o tanto que eles dois ainda teriam que sofrer

E antes de ser mordido costumava não ligar muito pro quanto ia viver

Na segunda estrofe já temos descrições sobre nossos personagens. É visível a situação de tristeza e talvez de rudeza do eu lírico. Novamente abordando a questão do tempo, ele se lembra de uma garota que lhe deu seu coração, e essa frase é ambígua, afinal, a garota deu o próprio coração ou deu um ‘coração’ para nosso protagonista amargurado?

O fato é que ele mesmo partiu esse coração em pedaços, e novamente transitando no tempo, ele parece saber que os dois ainda teriam de sofrer muito. Aqui a importância e a ideia de um ‘marco’ na vida dos dois é reforçada, e o eu lírico parece sempre caminhar entre o antes e o depois do ‘tiro’, no caso, ele descreve o incidente como ‘mordida’, o que já começa a chamar o conceito vampiresco, reforçado pelo termo ‘enquanto vivo’, ou seja, nosso protagonista pode ser um ‘morto’.

Foi quando ele voltou pra onde ele morreu

Encontrou ela mais velha, muitos fios brancos nos cabelos

Então, ela lhe disse que ainda lhe tinha muito amor

Ele estufou o peito, fitou seus olhos e esbravejou:

“Você me deu chance demais para provar que a gente nunca existiu”

E ela gritou: “Você nunca foi homem mesmo, você nunca passou de um vampiro”

Na última parte da música já temos a consumação da morte. O marco do ‘tiro’ ou ‘mordida’ desencadeou a ‘morte’ do eu lírico. Ele voltou para o fatídico lugar onde foi acertado e encontrou a garota, possivelmente quem o ‘matou’.

‘Ela’ viu nosso protagonista e disse que ainda lhe tinha muito amor, coisa que acabou levando-o à fúria. Podemos entender que o tiro e a mordida poderiam representar um término de relacionamento, e a história contada dá a entender que foi ela quem decidiu terminar.

Entretanto fica claro que a garota não é necessariamente a‘vilã’ da história, afinal, nosso protagonista mesmo assumiu ter partido um coração em pedaços. Incendiada pela resposta do eu lírico, a garota afirma que ele nunca passou de um ‘vampiro’.

Conclusão

Analisando toda a letra podemos resumir a história no conceito de ‘vampiro’. O nome da música, o fato de nosso protagonista ser mordido, não envelhecer e estar morto nos confirma que ele é um vampiro, condenado a vagar pela eternidade apenas ‘sugando’ os outros.

Entretanto o texto reforça a ideia de que a garota não é um vampiro, afinal, ele a reencontrou mais velha, com fios brancos nos cabelos. Sendo assim, quem o mordeu? Aparentemente há uma terceira pessoa na história, talvez a responsável pelo fracasso da relação.

Um vampiro é conhecido por ser ‘frio’, sem sentimentos e desumano, características do eu lírico. Entretanto um vampiro transforma um humano através da mordida, e nosso protagonista foi mordido por alguém, afinal.

Considerando a ‘mordida’ como um ato rude, de sofrimento, podemos entender que uma pessoa que foi magoada acaba por magoar outra, afinal, um vampiro precisa ‘morder’ outro, como um gesto ‘natural’.

O que achou da análise?

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