‘Existirmos, a que será que se destina?’ Uma análise da música ‘Cajuína’

Confesso que antes de começar a fazer a análise dessa letra eu já sentia a intensidade que ela traz. ‘Cajuína’ foi lançada por Caetano Veloso em 1979 e fala sobre Torquato Neto, poeta cofundador da tropicália que cometeu suicídio anos antes.

A música contém apenas uma estrofe de oito versos, no entanto o conteúdo da letra é extremamente denso e cada linha já é passível de uma extensa interpretação.

O contexto da canção é fundamental para entendermos sua mensagem, e o próprio Caetano já falou sobre isso. Torquato Neto cometeu suicídio em 1972 e o cantor conta que não chorou na hora, mas sentiu o luto vários anos depois quando se encontrou com o pai do poeta em Teresina.

Caetano contou que foi para casa dele e embora não conversassem muito, o choro era constante. Heli, pai de Torquato, serviu uma cajuína (bebida típica da região) para Caetano e vendo o músico inconsolável, pegou uma rosa no jardim e o entregou.

Portanto, Caetano escreveu ‘Cajuína’ com base nesse encontro que teve com Heli, ela fala de Torquato Neto mas não diretamente.

Vamos à letra:

existirmos, a que será que se destina?

pois quando tu me deste a rosa pequenina

vi que és um homem lindo e que se acaso a sina

do menino infeliz não se nos ilumina

tampouco turva-se a lágrima nordestina

apenas a matéria vida era tão fina

e éramos olharmo-nos intacta retina

a cajuína cristalina em Teresina

Podemos basear a letra em três pronomes ‘eu’ (Caetano), ‘tu’ (Heli) e ‘ele’ (Torquato). A música começa com o verso ‘existirmos, a que será que se destina?’, uma questão existencial característica de um momento como o vivido pelos três.

O questionamento sobre o propósito da existência é feito por Caetano e Heli, dada a situação da morte. Tal pensamento certamente também foi feito por Torquato antes de cometer o ato extremo, então o primeiro verso já une os três sujeitos e inicia esse questionamento existencial.

O segundo verso inicia o processo de deslizamento de significantes com base no contexto temporal entre passado, presente e futuro. ‘Pois quando tu me deste a rosa pequenina’ descreve o ato literal de Heli naquele dia em que se encontraram e também serve de metáfora para representar Torquato. O poeta sempre foi ‘pequenino’, e foi concebido logicamente por seu pai.

Caetano e Torquato

Caetano afirma ter visto a ‘beleza’ de Heli mas no entanto remete a ideia de que o homem padecia por causa da ‘sina do menino infeliz’. Aliás, essa foi outra coisa que o músico afirma ter visto, pois Torquato sempre deu indícios de que teria esse destino. O próprio pai disse uma vez que desde menino Torquato namorava com a ideia de tirar a própria vida.

Também podemos refletir sobre a ‘sina infeliz’, como se o poeta estivesse já destinado a ter esse fim desde o seu nascimento. Essa ideia também reflete no questionamento existencial do primeiro verso, afinal, se o destino já era nítido e ainda por cima infeliz, pra quê existir?

A canção confirma a sina trágica de Torquato, no entanto reflete o que seria caso ela ‘não se nos ilumina’. Outra vez podemos pensar na dita beleza vista por Caetano, beleza que transporta-se entre Heli, a rosa e Torquato. Fica a ideia de que o poeta poderia ser um ‘homem lindo’ como seu pai.

O trecho ‘não se nos ilumina’ também deixa uma ideia inconclusa, por que Torquato teve essa sina? Fica uma ideia de densidade, de uma falta de explicação, de uma não compreensão da ausência do poeta.

‘Tampouco turva-se a lágrima nordestina’ nos evidencia o choro, que tem como principal característica a lágrima. Entretanto não é uma lágrima turva, é uma lágrima cristalina, dando uma ideia de resistência à essa falta. Uma resistência característica do nordeste, acostumada historicamente com o conceito de ‘ausência’.

Há posteriormente uma alusão à ‘vida’ que ‘era tão fina’. Neste verso podemos extrair a ideia de que na falta de explicação para a morte de Torquato, se faz um ‘consolo’ ao dizer que a vida é fina, cristalina, curta.

Entretanto também podemos remeter ao físico poeta, já que se fala da ‘matéria vida’ de Torquato que sempre esteve ‘por um triz’, além do mais o piauiense também sempre foi franzino e ‘fino’.

Vendo tudo isso ‘e éramos olharmo-nos intacta retina’, de olhos limpos, Caetano e Heli olhavam para a cristalina cajuína em Teresina.


Conclusão

A canção é uma das mais belas composições da história brasileira e tem uma aura melancólica, angustiante. Há também uma ligação metafísica ao se evocar a presença de Torquato, dialogando com o questionamento existencial inicial.

A música sobretudo fala sobre a ausência, a ausência de alguém, a ausência de algo, a ausência de um propósito. Ela possui um fundamento filosófico transformado em um acontecimento humano com base no encontro ‘casual’ de duas pessoas.

O que fica como lição é o fato de que mesmo passando por toda essa situação e padecendo angustiantemente, há a resistência e a ideia de seguir em frente. Pois tampouco turva-se a lágrima nordestina.

Referência:

Goulart, A. T. (2003). Desconstruindo a “Cajuína" – uma leitura do texto-canção de Caetano Veloso. Scripta, 13(13), 25-34. Recuperado de http://periodicos.pucminas.br/index.php/scripta/article/view/12502

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