‘Todos somos ruins, todos perversos’: Análise de ‘Besta Fera’, de Jards Macalé

O disco ‘Besta Fera’, lançado em 2019, confirmou Jards Macalé como um dos mais icônicos artistas da história do Brasil. Soturno, pessimista e melódico, o álbum retrata majestosamente a contemporaneidade transitando entre passado e futuro, como se coexistissem em nosso cotidiano.

A história que levou ao disco começou em fevereiro de 2018, quando o músico comprou um aparelho para asmáticos poderem respirar a caminho do aeroporto, o ar não veio e tudo se apagou. Ele acordou dez dias depois entubado em uma cama de hospital, passando 31 dias internado com quadro grave de broncopneumonia.

Passado o susto, Jards Macalé decidiu gravar o primeiro disco de inéditas em mais de 20 anos, contanto com parte da equipe responsável por reerguer a carreira de Elza Soares com ‘A Mulher do Fim do Mundo’, incluindo Romulo Fróes e Kiko Dinucci. Um ano depois o disco ‘Besta Fera’ foi lançado, se tornando um clássico instantâneo.

A canção que carrega o nome do álbum é parte do poema ‘Aos Vícios’, atribuído a Gregório de Matos contendo vinte tercetos decassílabos. Macalé utilizou nove deles para moldar a música pessimista, obscura e intimista, revelando a relação dele com o atual cenário nacional. Embora tenha sido composta ainda no colonialismo, se tratando de Brasil, os versos são atemporais.

(A ignorância dos homens destas eras / Sisudos faz ser uns, outros prudentes / Que a mudez canoniza bestas feras)

A canção aborta temas como autoritarismo, censura, questões sociais e existenciais, tudo isso transposto por Macalé em um samba de sutil humor ácido. Em show no Festival Levada, na cidade do Rio de Janeiro, o cantor insinuou que as ‘bestas feras’ seriam os políticos da nova direita no Brasil.

Besta Fera é um dos melhores discos brasileiros do século XXI.

Besta fera
(Gregório de Matos / Jards Macalé)

Eu sou aquele que os passados anos
Cantei na minha lira maldizente
Torpezas do Brasil, vícios e enganos.

E bem que os descantei bastantemente,
Canto segunda vez na mesma lira
O mesmo assunto em pletro diferente.

De que pode servir calar quem cala?
Nunca se há de falar o que se sente?!
Sempre se há de sentir o que se fala.

A ignorância dos homens destas eras
Sisudos faz ser uns, outros prudentes,
Que a mudez canoniza bestas feras.

Há bons, por não poder ser insolentes,
Outros há comedidos de medrosos,
Não mordem outros não – por não ter dentes.

Quantos há que os telhados têm vidrosos,
e deixam de atirar sua pedrada,
De sua mesma telha receosos?

Uma só natureza nos foi dada;
Não criou Deus os naturais diversos;
Um só Adão criou, e esse de nada.

Todos somos ruins, todos perversos,
Só nos distingue o vício e a virtude,
De que uns são comensais, outros adversos.

Quem maior a tiver, do que eu ter pude,
Esse só me censure, esse me note,
Calem-se os mais, e haja saúde

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